Políticas públicas, economia do cuidado e a economia prateada no RS
- Serra Life

- 28 de nov. de 2025
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O Brasil vive uma transformação silenciosa, porém profunda. Segundo dados do IBGE, a população com 60 anos ou mais já ultrapassa 15% dos brasileiros, o que representa mais de 32 milhões de pessoas. Em 2070, a estimativa é que esse número alcance 37,8% da população — quase quatro em cada dez brasileiros.

O Rio Grande do Sul está na linha de frente dessa mudança. O estado é o mais longevo do país, com expectativa de vida média superior a 78 anos. Cidades como Gramado, Bento Gonçalves e Nova Petrópolis estão entre as que apresentam melhores indicadores de longevidade e qualidade de vida, reforçando o papel da região como polo de envelhecimento ativo.
Esse cenário traz desafios significativos: aumentar o acesso à saúde, adaptar o sistema previdenciário e repensar o mercado de trabalho. Mas também abre portas para uma nova economia — mais humana, inclusiva e sustentável — centrada no cuidado e na longevidade.
O que é a economia do cuidado
A economia do cuidado é um conceito que vai muito além da assistência à terceira idade. Ela engloba todas as atividades, formais e informais, que envolvem cuidar de pessoas — seja de crianças, idosos, pessoas com deficiência ou enfermos.
Segundo a ONU Mulheres, esse setor movimenta trilhões de dólares no mundo e é essencial para o funcionamento das economias modernas. No entanto, ainda é subvalorizado e, em grande parte, invisível nas políticas públicas.
Na prática, a economia do cuidado inclui:
Serviços de saúde e bem-estar;
Cuidado domiciliar e institucional;
Educação e formação de profissionais cuidadores;
Políticas de apoio a famílias e cuidadores informais;
Infraestruturas e tecnologias que facilitam o cuidado.
Em um mundo que envelhece rapidamente, cuidar se tornou um dos pilares da economia contemporânea. No Brasil, estima-se que o setor de cuidados já responda por mais de 10% dos empregos formais, e esse número tende a crescer nas próximas décadas.
A relação entre economia do cuidado e economia prateada
A economia prateada, ou silver economy, é o conjunto de atividades econômicas relacionadas às necessidades, preferências e potencial de consumo das pessoas acima de 50 anos. Já a economia do cuidado é o eixo que garante que essa longevidade seja vivida com qualidade, dignidade e saúde.
Esses dois conceitos se complementam:
A economia prateada impulsiona mercados — turismo, moradia, saúde, tecnologia, moda, alimentação.
A economia do cuidado garante estrutura, suporte humano e políticas públicas para atender essa nova realidade.
Em outras palavras, a economia prateada cria demanda; a economia do cuidado cria condições. Juntas, elas formam uma engrenagem que pode transformar o envelhecimento em uma oportunidade de desenvolvimento social e econômico.
Empreendimentos de moradia assistida, wellness real estate, centros de reabilitação e tecnologia assistiva são exemplos claros de como esse movimento está se materializando no mundo. Eles unem inovação, qualidade de vida e cuidado — pilares fundamentais de uma sociedade longeva.
O cenário do Rio Grande do Sul e as iniciativas locais
O Rio Grande do Sul tem se destacado nacionalmente por seus avanços em políticas públicas voltadas à população idosa. Em 2004, o estado foi pioneiro ao criar o Conselho Estadual do Idoso e o Fundo Estadual do Idoso, instrumentos que permitem financiar projetos de promoção da cidadania e do envelhecimento ativo.
Entre as iniciativas mais relevantes estão:
Universidades abertas para a terceira idade, oferecendo cursos, oficinas e atividades culturais voltadas à educação continuada.
Centros de convivência e academias ao ar livre, que promovem integração social e saúde preventiva.
Programas de voluntariado e mentorias intergeracionais, conectando jovens e idosos em ações educativas e sociais.
Parcerias público-privadas em saúde preventiva, ampliando o acesso a terapias, consultas e reabilitação.
Essas políticas representam passos importantes rumo a uma visão mais moderna do envelhecimento — não como um peso social, mas como um ativo econômico e humano.
Contudo, ainda há um longo caminho a percorrer. O estado precisa investir em:
Formação de cuidadores e profissionais especializados;
Incentivos fiscais para empresas que promovam bem-estar e acessibilidade;
Ampliação da rede pública de cuidado domiciliar;
Integração entre saúde, assistência social e tecnologia.
A Serra Gaúcha, por sua vocação natural para a hospitalidade e o bem-estar, tem potencial para liderar esse movimento. Cidades como Gramado, Canela e Bento Gonçalves já apresentam infraestrutura, capital humano e cultura de acolhimento que podem se traduzir em modelos de economia do cuidado aplicada.
Boas práticas internacionais
O envelhecimento é um fenômeno global, e vários países têm se destacado na criação de políticas que equilibram cuidado, inovação e sustentabilidade.
Portugal – envelhecimento ativo e bem-estar comunitário
Portugal implementou uma das políticas mais completas da Europa voltadas ao envelhecimento ativo. O país promove programas de cohousing sênior, incentiva o voluntariado intergeracional e integra saúde e assistência social em um mesmo sistema. O resultado é uma sociedade que valoriza o idoso como agente de conhecimento e cultura.
Canadá – cuidado domiciliar e políticas inclusivas
O Canadá é referência em cuidado domiciliar subsidiado. O sistema público cobre parte dos custos de cuidadores e adaptações residenciais, garantindo que o idoso possa viver em casa com segurança e autonomia. Além disso, o país investe em tecnologia assistiva e formação de profissionais especializados.
Dinamarca – bem-estar como política de Estado
Na Dinamarca, o cuidado é tratado como política essencial. O país oferece serviços públicos de apoio à terceira idade, moradias adaptadas e programas comunitários. A economia do cuidado é vista como investimento, não despesa, gerando empregos e promovendo bem-estar coletivo.
Esses modelos mostram que o envelhecimento pode ser vetor de desenvolvimento, desde que políticas públicas e iniciativas privadas caminhem lado a lado.
O futuro do cuidado: inovação, sustentabilidade e pertencimento
O Brasil, e especialmente o Rio Grande do Sul, têm potencial para se tornarem referências em economia do cuidado e longevidade saudável. Mas isso exige um olhar integrado entre os setores público, privado e social.
O cuidado precisa ser enxergado como uma infraestrutura essencial da sociedade moderna, assim como energia ou transporte. Cuidar de pessoas — seja em hospitais, residências, comunidades ou espaços públicos — gera emprego, reduz desigualdades e fortalece o tecido social.
Além disso, o avanço da tecnologia assistiva e da inovação social abre caminhos para soluções mais acessíveis:
Aplicativos que conectam cuidadores e famílias;
Dispositivos inteligentes para monitoramento de saúde;
Moradias inteligentes com design universal;
Plataformas de apoio emocional e psicológico para idosos.
O futuro da economia do cuidado será híbrido: humano e tecnológico, local e global, emocional e racional.
Conclusão
O envelhecimento da população não é um problema — é uma transformação que exige visão, empatia e estratégia. A economia do cuidado e a economia prateada representam um novo paradigma de desenvolvimento para o Brasil e para o Rio Grande do Sul, onde o bem-estar das pessoas se torna o eixo central das decisões políticas e econômicas.
Integrar políticas públicas, inovação e cuidado humano é o caminho para criar uma sociedade mais justa, saudável e sustentável. No futuro, o verdadeiro progresso será medido não apenas pelo crescimento econômico, mas pela capacidade de cuidar uns dos outros.






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